Notícia sobre o Programa Mais Educação na cidade de Novo Hamburgo

No RS, educação integral vincula escolas ao território e renova práticas pedagógicas

DANILO MEKARI – PORTAL APRENDIZ – 10/11/2015 – SÃO PAULO, SP

Todo ano, no início dos semestres letivos, as escolas da rede municipal de Novo Hamburgo, na região metropolitana de Porto Alegre (RS) – 53 EMEFs e 34 EMEIs, compreendendo um total de 24 mil alunos – produzem uma pesquisa sócio-antropológica sobre o território em que estão inseridas, oferecendo uma oportunidade para estudantes e professores saírem da escola e conhecerem o bairro onde vivem e estudam.

“Não apenas conhecer”, pontua Roseli Michel, coordenadora do Programa Mais Educação (ME) na cidade gaúcha – mas criar um sentimento de pertencimento local e, principalmente, “vislumbrar possibilidades de trabalho” no território.

Realizada antes de o ME se estabelecer em Novo Hamburgo, em 2008, a prática ajudou tanto as instituições de ensino como os equipamentos esportivos, culturais, educativos e de lazer da cidade. “Na verdade, a escola não é do diretor ou do professor – é do bairro, da comunidade. A partir do momento em que a comunidade entra na escola e mostra seu conhecimento e as escolas saem de seus muros para ver o que o bairro tem a oferecer, aí sim alcançaremos os principais objetivos da educação”, ressalta Michel.

No bairro Primavera, alunos contemplados pelo ME da EMEF José Bonifácio (cerca de 100 de um total de 360) realizam atividades educativas em um ginásio de esportes e uma quadra de escola de samba. “Quando a escola aderiu ao programa, em 2008, percebeu que ela não tinha espaço de qualidade para atender os alunos do turno integral. Aos poucos foi aparecendo a possibilidade de valorizar a cultura local do bairro”, relata Maíra Bisol, coordenadora do ME na José Bonifácio.

Todas as quartas-feiras, no período matutino e vespertino, as crianças saem da escola acompanhadas por professores e monitores e descem a rua Osvaldo Cruz em direção ao Ginásio de Esportes Vila Marte. Lá, têm uma hora e meia de aula de futebol de salão, onde meninos e meninas brincam e se divertem juntos.

“Agora o bairro já entende que a escola está passando por ali, e que toda quarta-feira os alunos estão nas ruas”, observa Bisol, lembrando que no início do projeto foram feitas faixas especiais para o cruzamento das crianças nas ruas, hoje desnecessárias.

Após o ginásio, a turma volta para a rua e segue até a Escola de Samba Cruzeiro do Sul, conhecida como Cruzeirinho, e que acaba de completar 93 anos de existência. Ali, o mestre de baterias da escola – a maior campeã do carnaval hamburguense – dá aulas de percussão e noção rítmica para os alunos.

“Antes, havia aula de percussão na escola, mas o barulho dos ensaios atrapalhava algumas professoras”, afirma Bisol. “Cedemos todos os nossos instrumentos para a escola de samba, que também estava com problemas financeiros, e treinamos ali tranquilamente.”

A escola possui ainda uma parceria com a Fundação Liberato, referência em ciência e tecnologia, onde alunos têm aulas de robótica – eles apresentaram seus robôs na Mostratec 2015. “Por que as crianças não podem ter acesso a esses equipamentos do bairro? Estimulando isso, aumentamos a visão do mundo deles – e a nossa própria também”, acredita. Para ela, a escola deve agir como um valorizador da comunidade.

Citou como exemplo da parceria escola e comunidade a criação de um sarau mensal na sede da Cruzeirinho, que reúne alunos da José Bonifácio e seus familiares com os moradores do entorno da escola de samba, reduto da cultura afro no estado do Rio Grande do Sul.

Bisol lamenta, porém, o fim da parceria com o espaço do Sindicato dos Comerciários, onde as crianças utilizavam a piscina para aulas de natação. O motivo é a falta de verbas que está acometendo o Mais Educação – resultado do ajuste fiscal promovido pelo governo federal. De acordo com Michel, em 2015, o número de alunos contemplados pelo programa está entre quatro e cinco mil – em 2014, eram 6.300.

“O impacto da falta de verbas foi bem desastroso”, prossegue Michel. Os últimos efetivos a aportarem na cidade foram em junho de 2015, referentes à segunda parcela do ano de 2014. Não há nenhum sinal de que o repasse de 2015 será realizado.

Michel cita uma lei municipal que diz que, quando a verba federal não é repassada, a prefeitura deve cobrir esse gasto. “O poder público passou a fazer um ressarcimento dos monitores para que possamos voltar a atender pelo menos o número de alunos que a gente atendia em 2014, visto que as famílias já tinham se estruturado com o programa.”

As escolas cadastradas no Mais Educação de Novo Hamburgo recebem aproximadamente R$ 1.600 mensais para pagamento dos monitores que, em sua maioria, são moradores da comunidade onde fica a escola. A formação deles acontece em parceria com a Universidade Feevale.

Na opinião da coordenadora do programa, é preciso encarar a questão com ceticismo: as escolas mais bem preparadas para o corte de verbas são aquelas que investiram na diversificação de oficinas oferecidas pelo ME. “A escola que escolheu as mesmas oficinas ano após ano não vai ter material para trabalhar outros temas. Já aquela que proporcionou diferentes oficinas a cada ano estará melhor preparada para receber só o dinheiro dos monitores, pois terá material para trabalhar robótica, judô, música, fotografia, rádio.”

Situada em Hamburgo Velho, no coração da cidade, a Sociedade Aliança é sede do coral mais antigo do Brasil. Fundado em 1888, o clube hoje oferece piscinas e aulas de tênis para seus cerca de mil sócios. Quem também frequenta as quadras de saibro do clube são as crianças da EMEF Affonso Penna.

Tiele Gomes, coordenadora do ME na escola, revelou que os 40 alunos contemplados pelo programa esperam ansiosamente pelas terças-feiras, data da aula de tênis semanal. O professor escolhe três crianças com potencial no esporte para fazer aulas exclusivas no dia seguinte.

“Historicamente o Aliança sempre foi um clube elitizado”, recorda Cali Maier, coordenador do projeto, que teve início em março desse ano. “Como o movimento vem diminuindo e as quadras sempre ficavam vazias à tarde, enxergamos a possibilidade de abrir esse espaço para a comunidade.” Para 2016, a intenção é dobrar o número de estudantes contemplados.

A EMEF fica no bairro Vila Nova, há dois quarteirões dali. As crianças fazem o trajeto a pé. “Na escola, os professores percebem que a concentração que os alunos mostram na quadra de tênis se transferiu para a sala de aula”, avalia Gomes. “É nítida a evolução no comportamento deles. Estão mais atentos. A saída da escola também os ajuda a construir conceitos de cidadania.”

Apesar do corte de verbas, Michel comemora o sucesso do ME na cidade gaúcha. O programa prevê ainda que as escolas façam intervenções no bairro mensalmente, estimulando a ampliação de parcerias com outros espaços públicos do território. “Recentemente, algumas escolas se juntaram em uma praça e promoveram um chá do Outubro Rosa para as mães. Levaram até o posto de saúde!”, entusiasma-se, enumerando as quatro ações inovadoras realizadas em apenas uma atividade: ocupação do espaço público, o vínculo com o equipamento de saúde, a saída do espaço escolar e o envolvimento com as famílias.

Para ela, a escola que pensa no aluno, no bairro e na cidade vai sempre se expandir e dar maiores oportunidades de aprendizagem às crianças. “Temos cada vez mais motivado as escolas de Novo Hamburgo a cultivarem essa prática, pois acreditamos que ela ajuda a construir uma Cidade Educadora”, finaliza.

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